I.-A vocação pessoal-cristã:
l.A riqueza que significa ser criado à imagem de Deus (cf. Gn 1, 26ss.) foi
traduzida pela Igreja, na cultura ocidental, mediante o conceito de pessoa humana/o Todo ser humano é uma pessoa, sendo chamado a desenvolver as relações constitutivas da pessoa. Desenvolver-se como pessoa - personalidade - constitui a vocação pessoal. De maneira muito resumida, apresentamos a seguir as relações fundamentais que integram a riqueza da pessoa humana, na perspectiva bíblico-cristã:
1.1. As relações consigo próprio (interiorização),que comportam
- a auto-pessessão: pelo fato de ser uma pessoa, sou chamado a ser senhor da minha
vida (rejeição da escravidão);
- a liberdade e a responsabilidade: sou chamado a desenvolver a minha capacidade
de escolher por mim mesmo, isto é, a ser livre (rejeição da manipulação);
- a auto-finalidade: sou chamado a desenvolver o meu modo próprio de ser pessoa (rejeição da jnstrumentalização). O ser humano não é um objeto ou uma coisa, é uma pessoa valiosa por ela mesma para além de toda instrumentalização ou utilização.
É fácil concluir que pelo fato de ser uma pessoa, eu sou único e irrepetível, distinto dos outros seres humanos, do cosmos e de Deus.
1.2. Mas, eu só posso me desenvolver como pessoa nas relações com Deus, com o mundo criado pelo amor de Deus e com os outros seres humanos ( abertura ou transcendência). Vejamos, a seguir.
a) A relação com o Deus da criação-salvação: mediante a confiança, a fé, o amor, a
obediência.
b) A relação com o mundo criado pelo amor do Deus da Vida: ação de graças,
comunhão e responsabilidade.
c) As relações com os outros seres humanos: diálogo, amizade, amor, colaboração,
justiça, perdão, confrontação leal etc.
d) As relações comunitáriill) eclesiais: vivência da comunhão fraterna.
1 Sobre o significado da pessoa humana, cf. GARcíA RUBlO, A, Unidade na pluralidade. O ser humano à luz dafé e da reflexão cristãs. São Paulo: Paulus, 38 ed., 2001, p. 303-317; Id., Elementos do Antropologia Teológica. Salvação cristã: salvos de quê e para quê? Petrópolis: Vozes, 28 ed., 2004, p.107-115.
2. Nessa riqueza de relações, está presente o apelo radical para o desenvolvimento de uma subjetividade aberta. Convém caracterizar a subjetividade fechada e a subjetividade aberta2.
~ Subjetividade fechada: o outro é negado como outro. Aplicação às relações entre homem e mulher, entre pais e filhos etc. Deus também é rejeitado como Outro. Na realidade, o outro só é aceito na medida em que corresponde à minha expectativa. Levados pela subjetividade fechada, desenvolvemos relações de dominação e de instrumentalização do outro. Resultado: desumanização, "morte" do outro e desastre ecológico.
~ Subjetividade aberta: o outro é aceito e acolhido como outro. Ü respeitado e
valorizado como outro. Mais ainda, é ajudado a ser outro, fiel à própria vocação pessoal. Esta abertura-acolhimento nos questiona, nos desinstala e nos enriquece.. Certamente, a visão bíblico-cristã do ser humano aponta para uma subjetividade aberta. É o tipo de subjetividade vivida, de maneira coerente e profunda, por Jesus d.e Nazaré. É a subjetividade que nós, cristãos, somos chamados a desenvolver.
3. Qual é, então, a vocação da pessoa humana, conforme o projeto do Deus da Vida, do Deus criador-salvador? Que a pessoa desenvolva, de maneira inclusiva, as relações de interiorização e de abertura. Que a pessoa seja, mesmo, pessoa. E qual é a fmalidade última dessa vocação pessoal? A resposta bíblica é clara: somos criados e existimos para viver a salvação oferecida por esse Deus da Vida e do Amor. Isto consiste na participação da auto¬comunicação da Vida mesma de Deus! Entretanto, dada a realidade do pecado, a salvação leva consigo também a libertação da escravidão do pecado. Sabemos que o tema da salvação constitui o centro da revelação bíblica, tanto no AT como no NT. Notemos bem que a criação é já o início da salvação, no AT. O NT confessa que Jesus Cristo é o mediador tanto da criação quanto da salvação (cf. Col. 1, 15-20; Jo 1, 1-3; lCor 8,6). Jesus Cristo é o homem verdadeiro, a verdadeira imagem de Deus, cabeça da noVa humanidade, modelo do que significa ser humano conforme o projeto do Deus criador-salvador. De fato, o mistério do homem só se esclarece, mesmo, à luz de Jesus Cristo (cf. GS, 22). Viverem conformidade com Jesus Cristo, nisso se resume a vivência da nossa vocação humano¬cristã integral.
4. A vocação humano-cristã do ser humano supõe uma visão integrada da pessoa e a
superação da perspectiva dualista3.
A pessoa humana é muito complexa. Nela, encontramos grande riqueza de dimensões: interiorização-abertura, espiritualidade-corporalidade, razão-afetos, etc. Compreende-se a facilidade com que se insinua a tentação do reducionismo dualista.
. De fato, a visão dualista está presente sempre que, para ressaltar uma dimensão ou aspecto do ser humano, a pessoa é levada a desvalorizar uma outra dimensão ou aspecto com a qual se encontra em tensão. Exemplos.
Ora, é óbvio que esta visão dualista afeta igualmente a maneira que nós temos de articular as diversas dimensões ou aspectos que constituem a. riqueza da vida cristã. Exemplos.
2 Cf. Id., Elementos de Antropologia Teológica, p.147-159.
3 Cf. Id., Unidade na pluralidade. Capo 2 e 8.; Id., Elementos..., p. 15-36.
A vocação humano-cristã fica, assim, muito empobrecida. É fácil concluir que se trata de uma visão do ser humano inadequada para entender e viver a riqueza que significa o projeto de Deus sobre a nossa humanização integral.
Existe, felizmente, outro modo de considerar a realidade da pessoa humana. Trata-se da visão integrada ou unitária, que relaciona diretamente as dimensões básicas da vida humano-cristã. Nesta visão, as dimensões se relacionam de maneira inclusiva, de tal modo que uma dimensão está sempre aberta à complementação crítica da outra dimensão com a qual se encontra em tensão.
Esta perspectiva integrada do ser human~ predomina largamente na Sagrada Bíblia. Nesta, o ser humano é visto como uma unidade. É, assim, que Jesus Cristo vê o ser humano. Ver, por exemplo, Mt 7, 24-27 e Jo 13, 17.
O ser humano acolhe o dom do amor e da vida oferecidos por Deus, com todo o seu ser. A salvação é vivida pelo homem e pela mulher com todas as suas dimensões. Afeta o ser humano integralmente considerado.
É a pessoa concreta que vive, relaciona e unifica as distintas dimensões humano¬cristãs da pessoa. Evidentemente, são incluídas também as dimensões biológica, psíquica e espiritual.
ll. O contexto cultural e sócio-poHtico da vocação
Vimos acima que a pessoa humana é um ser de relações. Atenção especial merecem
as relações com os outros seres humanos. O ser humano é co-humano (humano com e junto aos outros humanos). Cada pessoa está inter-relacionada com as outras de múltiplas maneiras. Não se pode tratar, adequadamente, da vocação humano-cristã, prescindindo da relações da pessoa com o contexto cultural (linguístico, sócio-político, econômico, ecológico etc.) e, certamente, eclesial. O contexto pode ajudar ou pode obstaculizar o desenvolvimento da vocação humano-cristã bem como das vocações especificas. A seguir, vamos lançar um olhar panorâmico, provavelmente incompleto, aos contextos culturais e
eclesiais tal como se apresentam na atualidade.
O momento cultural atual vem caracterizado por um acentuado pluralismo.
1. Assim, deparamo-nos com aspectos próprios do mundo da Civilização Agrícola:
uma visão do ser humano em que predomina a perspectiva estática e ahistórica, com acentuada tendência para o fatalismo, o teocentrismo, o patriarcalismo, a sacralização da natureza e do poder constituído, o dualismo antropológico: alma vs. corpo.etc.
2. Em forte oposição a estes aspectos, encontramos as características culturais próprias da modernidade tais como: a visão dinâmica, histórica e evolutiva do ser humano e da história; a visão antropocêntrica marcada por forte racionalismo; a dessacralização da natureza e do poder constituído, a secularização, a crise da autoridade, a privatização da religião, o forte subjetivismo individualista, o dualismo antropológico (''res cogitans e ''res extensa": Descartes); a visão mecanicista do ser humano e da realidade, em geral; o futuro melhor para todos, visto na imanência da história etc.
3. Como reação às acentuações próprias da modernidade, constatamos o influxo crescente de uma sensibilidade pós-moderna, com uma visão pessimista e diminuída do ser humano; muito crítica do racionalismo e do mecanicismo modernos; uma visão que
valoriza o simbolismo e o mundo da afetividade; que desconfia dos compromissos sociais e políticos bem como das instituições; que prioriza, no viver cotidiano, a procura de
satisfações imediatas, o utilitarismq e cons.1l111ismo;que vive um acentuado subjetivismo individualísta e narcísico, um subjetivisPJ.Q(; coll} ;çpnseqüências negativas no campo dos
valores éticos e no campo religioso etc. .;.; J. ,i ;;. ,
4. A visão holística4 é também uma maneira de confrontar-se com a modernidade. É
uma perspectiva que procura ver o ser humano de maneira integrada, superando o dualismo . alma-corpo, mente-cérebro etc., articulando em equílíbrio dinâmico o racional e o intuitivo,
o masculino e o feminino, a auto-afIrmação e a cooperação etc. O ser humano é visto como um sistema vivo altamente complexo, relacionado de múltiplas maneiras com a família humana e esta com o ecossistema vital do qual faz parte.
Convém notar, contudo, que na prioridade concedida à integração no todo cósmico vivente, se dá a tendência para descuidar a realÍdade do ser pessoal autônomo e insubstituível própria de cada pessoa humana. Predomínio do natural sobre o pessoal.
5. Alguns falam, hoje, em hipermodemidade, indicando com este termo a exacerbação do consumo e do individualismo narcísico. Assim, por exemplo, G.
LipovetslcY. Este autor assinala, contudo, a ambigüidade existente na situação hiper¬
moderna, pois, junto com o consumismo e o narcisismo levados ao extremo, está pr~&ente a procura de relacionamentos não-comercializados, cresce o respeito pela pessoa humana e pelos seus direitos, cresce também a sensibilidade em relação ao sofrimento dos outros etc. No contexto da hipermodernidade, nem tudo é nihilismo e relativismo. "No universo incerto, caótico, atomizado da hipermodemidade, cresce também a necessidade de unidade e de sentido, de segurança, de identidade comunitária,,6. Este autor vê aqui uma nova chance para a religião. Acresce que o indivíduo na hipermodernidade, é fragilizado emocionalmente, sujeito a depressões e ansiedades crescentes. Indivíduo privado da força interior proporcionada pelas estruturas sociais. Outro aspecto importante para a Pastoral vocacional.
6A nova economia e a nova sociedade informacional e globaf
- O neoliberalismo econômico alicerçado na tecnologia da informação está
desenvolvendo uma economia informacional e rlobal e uma nova modalidade de sociedade
denominada por alguns de Sociedade em Rede . Pessoas, grupos e atividades consideradas importantes em termos de poder e de riqueza estão ligados e organizados em redes, de maneira global. Simultaneamente, se dá um processo que visa excluir ou desconectar dessas redes, pessoas, regiões, países e até continentes que não interessam para o mercado globalizado. .
- A economia globalizada tem proporcionado melhora de vida e prosperidade para um terço da população mundial. M~!p, com o custo elevadíssimo da exclusão da maioria da
população mundial. O mercado tem suas leis e normas próprias que devem ser obedecidas rigorosamente. A desobediência é castigada com a exclusão da econ9mia globalizada.
- O desemprego estrutural é considerado algo normal.
4 Cf. Id, Unidade na pluralidade, p.46-48
5 Cf. G. Lipovetsky-S. Charles, Os tempos Hipermodernos. São Pauto, Barcarolla, 2004.
6 .
Ibid., p.94 .
7 Cf. A García Rubio, Unidade na pluralidade. p.48-50.. .
8 Cf. CASTELLS, M., A era da informação: economia, sociedade e cultura, vol. 1: A sociedade em rede;
vol. 2: O poder da identidade; vol. 3: Fim do milênio. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
- Competitividade desenfreada e feroz; culpabilização dos excluídos (tidos como
incapazes, preguiçosos ...). '
- Valioso é o' ser humap.p que pode consumir no maravilhoso mercado mundial. A nova bem-aventurança do çpnsumo. Quem não pode consumjr,.faz parte da massa descartável. freqUentemente, desenvolve-se uma atitude de indiferença e até de cinismo em relação ao~ milhões depessol:is excluídas do consumo.
- Desenvolve-~e UIcat_lista cul~a internacional que desvaloriza as expressões culturais
nacionais e regionais ou;eptão,procura integrá-Ias como elementos folclóricos.
- O enraizamentolocal tende ~ ser suplantado pelo espaço de fluxos e o tempo cronológico pelo tempo virtua1., Tudo isto com conseqüências imprevisíveis sobre o ser humano.
7. A reação da procura 'tia identidade desafiando a globalização. Contudo, existe uma forte reação mundial na procura de identidade, desafiando a globalização. Identidade: "a fonte de significado e de experiência de um povo..9. Lembremos que a identidade
organiza significados. '
As três formas de'construção da identidade: identidade legitimadora, de resistência e
d
.
t
IO
eproje o .
O desafio para a Igreja: colaborar na procura da identidade de projeto. Exemplo: As
Comunidades Eclesiais de Base, quando orientadas por uma visão integrada do ser humano.
8. O contexto da nova religiosidade(Nova Era../I: "
- Acentuada valorização da experiência religiosa; liberdade na procura do divino:
cada um é agente vital, não um receptor passivo de uma doutrina. Inserção na COlTente vital, com forte valorização dos sentidos, do corpo e da intuição. Retomo à religião da natureza e desvalorização da história como lugar da salvação. Desvalorizaçã.o. ;da razão na experiência religiosa. Comunhão com o cosmos e com o EU profundo onde se encontra o divino, superando-se, assim, a monotonia do cotidiano. Resultadp: ,paz, ,reconciliação,
superação da angúsüa, da solidão e do medo. " ,
- O ser humàno é divino. Deus é impessoal: energia, vibração etc. Deus e mundo tendem a se confundir. Superaç,ão de todos os limites. O que import;a éo, TODO. Fusão e
mergulho nesse TODO, superando as diferenças. "
- Meditação e interiorização, não oração. Importância do transe, do êxtase religioso, da "ampliação da consciência", fora do mundo do cotidiano.C()rpo ,e mente mutuamente unidos, indissociáveis. Conexão com o esoterismo. Salvação entendida como auto¬salvação. A graça interna não é necessária. Rejeição da mediação salvífica de Jesus Cristo (vida, morte e ressurreição). Tendência para a reencarnação. Fascínio pelo misticismo oriental. 12 Rejeição das instituições religiosas tradicionais. Resumo da crítica feita ao catolicismo: moralismo, autoritarismo, clericalismo, patriarcalismo, liturgia formalista...
9 , Id., vol 11: O Poder da Identidade, p. 22. 10 Cf. Ibid., p. 24.
11 cf. A García Rubio, Elementos de antropologia Teológica. Salvação cristã: salvos de quê e para quê?
Petrópolis, Vozes, 2004, p.l38-141.
12 Sobre a religiosidade no mundo pós-moderno, especialmente sobre a Nova Era, cf. A Natale Temn, Nova Era. A religiosidade do pós-moderno, São Paulo, 1996.
m. o contexto eclesial
1. Forte tensão atual entre uma visão da Igreja em que predomina a perspectiva
hierárquica, herdada da cristandade, e a visão da Igreja como Povo de Deus e como comunhão de carismas e ministérios. Tensão entre a dimensão institucional e a dimensão
carismática da Igreja, entre a instituição e a liberdade13. A tentação do dualismo. '
Para a Pastoral V ocacional é muito importante aceitar que as tensões fazem parte do dinamismo do crescimento pessoal e comunitário-eclesial. Importa muito saber aceitar a existência de movimentos, espiritualidades, pastorais e teologias distintas, com suas acentuações pr6prias. Essa pluralidade é legítima e necessária, sempre que uma detenninada acentuação fique aberta à complementação e à crítica provenientes da outra dimensão com a qual se encontra em tensão.
2. O pluralismo religioso é uma realidade atual. Impõe-se urgentemente o aprofundamento na identidade cristã. Qual é a intencionalidade profunda cristã? É essa intencionalidade que deve ser preservada. A distinção entre a fé e a expressividade dessa fé deve ser mais aprofundada. A fé cristã não se dá nunca em estado puro. Encontra-se sempre expressada em modos culturais, embora transcenda cada cultura particular e não se identificando com nenhuma delas. A formação de cada cristão aparece, assim, com toda urgência.
3. Entre o medo e a esperança. A) O medo.
- O medo diante da tentação crescente do fundamentalismo. Contudo, este nos
lembrar a importância e a necessidade antropológica das tradições. Não é possível a vida humana num ambiente de incerteza total. Mas, cuidado para que a tradição não se tome tradicionalismo.
- Medo também diante do crescente relativismo religioso, próprio da sensibilidade pós-moderna. O desafio de articular fecundamente a tradição e as exigências culturais do mundo atual. A necessidade de levar adiante o processo de inculturdção é cada vez mais
premente 14. ,
-Medo ainda diante da tendência a emocionalismo e ao ÚTacionalismo, que acaba reduzindo a espiritualidade à emoção. Necessária aqui é a educação para a experiência do Mistério15.
- Medo da liberdade e do diferente (medo do pluralismo teológico, medo da
inculturação, etc.).
B)E a esperança?
- Reconhecimento das nossas deficiências. Valorização ou revalorização do símbolo,
do afetivo, do feminino, da visão integrada do ser humano e do cosmos. Valorização também da alegria de viver e da auto-confiança sadia; o Evangelho vivido e apresentado como Boa Nova alegre e libertadora.
- Experiência do Deus VIVO, que nos fala hoje mediante a Sagrada Escritura atualizada, mas também mediante tudo aquilo que nos faz transcender para além de nós mesmos (a natureza, o amor, a arte ...).
13 Cf. J. B. Libãnio , Olhando para o júturo. Prospectivas teológicas e pastorais do Cristianismo na América Latina. São Paulo: Loyola,2003, p.6-7;47-48; 198ss.
14 Cf. ibid., p. 153. 17588.
15 Cf. ibid., p. 10088.
- Revalorização da experiência da gratuidade do amor de Deus. O amor nunca é passivo. Receptividade ativa. Esta experiência é completamente fundamental, sempre, mas, especialmente, no tempo atual tentados qU(~ estamos pelo acentuado ativismo
- Rejeição de uma espiritua1idade ftim e estéril, sem enraizamento cósmico e sem calor humano. Importância crescente da dimenslIo ecológica e da dimensão pessoal-subjetiva na vivência e na celebração da fé cristã. Necessidade de experiências religiosas e litúrgicas mais diversificadas.
Espiritualidade penetrada da experiência da beleza. Deus experimentado na música, na dança, na poesia, nas cores, nas formas das esculturas, nas celebrações belas. Revalorizar o encontro com Deus no cotidiano, na realidade da vida de cada dia, respondendo, assim, ao desafio da globalização.
- Espiritualidade superadora do individualismo. Procura do nós, de comunidades
abertas.
- Desenvolvimento do diálogo ecumênico e inter-religioso.
4.0 compromisso com os excluídos pela sociedade continua a ser prioritário para a
Igreja atual. Da realidade desse compromisso, depende, em boa parte, a credibilidade da Igreja, hoje. Revalorização da dimensão política da fé cristã.
5. Não é pequena a capacidade da midia, controlada por fortes interesses econômicos, de manipular a consciência das pessoas. Outro desafio para a Igreja atual: em colaboração com outras instituições, grupos, ONGs etc. ajudar na organização do povo e no desenvolvimento do espírito crítico que faz com que a pessoa não fique simplesmente passiva diante das mensagens recebidas, mas seja capaz de redecodificá-Ias em função de prioridades distintas das veiculadas pela midia 16.
6. Importa não se iludir com a afirmação do Brasil como grande pais católico. Sabemos que os católicos comprometidos com a vida eclesial são uma minoria. É fácil também perceber, dado o crescente subjetivismo, o quanto está diminuindo a capacidade das instituições para orientar a vida religiosa das pessoas. O contexto religioso pluralista atual está a exigir uma clara opção pastoral pelo desenvolvimento de uma fé pessoal¬comunitária, no pólo oposto do individualismo narcisico. Aparece como algo prioritário o desenvolvimento de uma pastoral preocupada, acima de tudo, com o crescimento da fé
pessoal-comunitária de cada batizado. Ou com outras palavras, supõe a existência de comunidades vivas chamadas a viver a evangelização (unida aos sacramentos), o serviço concreto, a comunhão fraterna (koinonia) e a celebração comunitária da fé. Pastoral de pequenas comunidade abertas, sempre, à ação pastoral voltada para a multidão. Relação aqui também de inclusão mútua.17
7. É nessa Igreja viva que a vocação pessoal cristã bem como as vocações especificas encontrarão a força, a coragem, o alimento, a alegria e a esperança para um desabrochar enriquecedor para cada pessoa e para a comunidade. Sempre numa perspectiva de integração- inclusão das distintas dimensões.
Alfonso Garcia Rubio
16 Cf. LIBÂNIO, op. cit., p. 20088.
17 Cf. GARCIA RUBlO, A, "Superação do infantili8mo religio8o", Atualidade Teológica 12 (2002),p.303¬328.
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